Good bye Lenin

Roteiro de Leste em Berlim

Na madrugada de 13 de Agosto de 1961, Mia Reinhardt perdeu o pai, a cidade e o país. Enquanto guardas e operários da Alemanha Oriental separavam com arame farpado e cimento os lados Leste e Oeste de Berlim, o pai sucumbia a um enfarte fulminante. Mia tinha 10 anos, e não estava preparada para a agonia daquele dia, que a escoltou pela vida. «Ninguém está…», murmura num dos corredores do soturno antigo quartel-general da STASI, o Ministério para a Segurança do Estado da Alemanha Oriental, a temida polícia política e agência de inteligência.3

No imponente edifício funciona, atualmente, o Museu da STASI de Berlim, que disponibiliza visitas guiadas ao universo de vigilância permanente e repressão que constituiu a espinha dorsal do Estado dos Operários e Camponeses ao longo de quase quatro décadas de existência. Com reserva prévia e atempada, também promovem programas especiais de visitas acompanhadas por ex-presos políticos. É o caso de Mia.

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Por 3 vezes detida (a primeira vez, denunciada pelo então marido), por 3 vezes desaguou neste monstruoso edifício. O adjectivo não salta à toa, e aplica-se como uma luva à grandiosidade volumétrica da construção, a par das histórias de escuridão que se foram desenrolando no seu interior. Quando o Muro de Berlim caiu por terra em 1989, a STASI contava com 90 mil agentes e 175 mil informadores que vigiavam ferozmente 17 milhões de habitantes. Contas feitas, conclui-se que o sistema acautelava 1 espião por cada 63 habitantes. Mais de um terço da população tinha a sua vida metodicamente organizada em fichas nos imensos arquivos da STASI, para a qual nada era sagrado. Rotinas, comportamentos e relacionamentos, tudo era passado a pente fino através de eficazes e doentios métodos de espionagem que ainda hoje impressionam. O Estado que tudo podia, que tudo queria saber e que a todos ambicionava atingir.

Reunificada há 21 anos, Berlim é, hoje, uma cidade livre e cheia de fôlego. Cosmopolita, forrada de História e atracções turísticas, em cada recanto respira-se uma vida cultural intensa. Mas incidamos o foco desta nossa sugestão apenas no Muro e em alguns dos espaços que marcaram a vida dos que ficaram do lado de lá da História, cravados como uma cicatriz nesta inquieta Berlim actual, que importa preservar e conhecer para memória futura. Recue umas décadas, faça um esforço de concentração e embarque numa viagem a Berlim com olhos de Leste.

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1. STASI Museum

Onde? Ruschestraße 103, Haus 1, 10365 Berlin

Quando? De 2ª a 6ª feira, está aberto das 10H00 às 18H00. Fins-de-semana e feriados, das 11H00 às 18H00.

Encerra nas vésperas de Natal e de Ano Novo.

Como (reservas)? Ligue +49 (0)30 – 553 68 54.

2. DDR Museum

Para o enquadrar no estilo de vida comunista de um alemão oriental, nada melhor que continuar o passeio por uma visita a este museu, junto ao Spree, o rio que serpenteia a cidade, e à Catedral de Berlim. Através de uma exposição interactiva e muito apelativa, somos conduzidos ao quotidiano da maioria da população da Deutsche Demokratische Republik (DDR), República Democrática da Alemanha, organizado por áreas como habitação, trabalho, férias, moda, cultura ou compras.

Onde? Karl-Liebknecht-Strasse 1, 10178 Berlim.

Quando? Aberto todos os dias da semana, das 10H00 às 20H00, e aos Domingos até as 22H00.

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3. Gedenkstätte Berliner Mauer (Memorial do Muro de Berlim) e East Side Gallery

Estes dois locais guardam os troços de muro mais bem preservados da demolição, e que merecem uma visita. Na Bernauerstraße, encontramos o Memorial do Muro de Berlim, um museu a céu aberto muito interessante, com instalações, uma mostra expositiva e a possibilidade de visionar filmes históricos, que nos transportam para a atmosfera claustrofóbica de quem vive paredes meias com o medo em estado puro.

Na East Side Gallery confrontamo-nos com a leitura da arte sobre esta realidade. Ao longo de mais de 1 quilómetro, junto ao Spree, este troço de muro transformou-se ao longo do tempo numa galeria de arte ao ar livre, com mais de 100 pinturas de artistas de todo o mundo. A não perder.

Onde?

Memorial do Muro de Berlim: Bernauerstraße 119, 10117 Berlin.

East Side Gallery: Mühlenstraße, 10243 Berlin.

Quando? O Memorial do Muro de Berlim está aberto de Terça-feira a Domingo, das 9H30 às 19H00, nos meses de Abril a Outubro. De Novembro a Março, encerra 1 hora mais cedo.

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4. Bahnhof Friedrichstraße (Estação de Friedrichstraße) e Tränenpalast (Palácio das Lágrimas)

Com mais de 3 quilómetros de comprimento, a Friedrichstraße é a rua principal do bairro de Mitte, e, arrisco a dizê-lo, de Berlim. É lá que se situa uma das mais importantes estações de comboios suburbanos e regionais de Berlim, última paragem para quem visitava o Leste vindo do Ocidente, quando o muro ainda marcava a sua presença. Durante esse período, para mitigar a saudade e visitar os parentes e amigos que tinham ficado do lado de lá do muro, os alemães da Bundesrepublik Deutschland (República Federal da Alemanha) contavam com alguns pontos de fronteira entre os dois países, em pontes, ruas ou aqui, na Estação. O único posto de passagem onde habitantes do Leste e viajantes do Ocidente se cruzavam.

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Estas visitas «ao outro lado» tinham que ser planeadas pelo interessados com alguns meses de antecedência, obrigados a cumprir com metódicas disposições burocráticas, apertados controlos por parte das autoridades e um circuito pré-definido para seguir à risca. Os visitantes chegavam de metro ou comboio, e começava a humilhante via-sacra. Cabines individuais com policiais fortemente armados, inspecionavam quem pedia para entrar, vasculhavam pertences e carimbavam a quase infinita documentação exigida para a ocasião. Depois de tudo ser passado a pente fino, era-lhes, então, concedida permissão para entrar no País dos Operários e Camponeses. Terminado o tempo de estadia, que variava consoante o visto atribuído, era o momento das sempre dolorosas despedidas e de enfrentar os procedimentos de saída, num pavilhão anexo à Estação e que, cedo, passou a ser vulgarmente e apropriadamente evocado por Tränenpalast, o Palácio das Lágrimas. Este espaço é visitável e acolhe em exposição objetos originais, documentos e vídeos com depoimentos de quem experimentou esta situação de ambos os lados da barricada.

Onde? O Palácio das Lágrimas situa-se junto à Estação, do lado Rio, na Reichstagufer 17, 10117 Berlin.

Quando? De Segunda a Sexta-feira, das 9H00 às 19H00. Sábados, Domingos e Feriados, das 10H00 às 18H00.

5. Oberbaumbrücke (Ponte Oberbaum)

Para além de lindíssima, a Ponte de Oberbaum oferece a quem a visita uma vista privilegiada sobre a cidade. Bem no coração do bairro de Kreuzberg-Friedrichshain, durante a Guerra Fria funcionou como corredor de passagem entre o Leste e o Oeste para milhares de famílias ocidentais que a cruzaram a pé para atravessar a fronteira e visitar quem tinha ficado do outro lado. Após a queda do muro, as estradas e as linhas de comboio foram reabertas.

Impõe-se um passeio à noite para apreciar a bonita iluminação e os concertos de rua.

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6. Checkpoint Charlie

Sim, é demasiado turístico, mas não há como escapar a esta visita. Apelidado assim pelos aliados, este posto militar de controlo entre a Alemanha Oriental e Ocidental durante a Guerra Fria, tornou-se famoso por ser o ponto de passagem preferencial de estrangeiros e membros das Forças Aliadas, e por ser o local que assistiu, em 1961, a um dos mais tensos episódios da Guerra Fria, que só terminou com a intervenção do Presidente Norte-Americano John Kennedy, e do Secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética, Nikita Khrushchov.

Onde? Friedrichstraße 43-45, 10117 Berlin.

7. Karl Marx Allee

A ideia era esmagar o vizinho ocidental e o visitante acidental com o esplendor soviético da dimensão fora de escala desta avenida. Objectivo plenamente alcançado. Forte e feia.

Rasgada no final dos anos 1950, a Avenida Karl Marx estende-se por mais de 2 quilómetros, entre os bairros de Mitte e Friedrichshain, e era o palco privilegiado para a pompa e circunstância dos incontornáveis desfiles militares oficiais e das cerimónias do Dia do Trabalhador. Para além de monumentais edifícios residenciais, acolhia cafés, restaurantes elegantes e um cinema, para inglês ver, mas, hoje, não passa de uma artéria antiquada e desadequada, que merece a visita por constituir um símbolo do Estado dos Operários e Camponeses e um emblemático exemplo da arquitectura estalinista e desenho urbano da DDR.

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8. Alexanderplatz («Alex» para os berlinenses)

Larga e franca praça, bem no centro da cidade de Leste, foi este o local escolhido para palco das principais manifestações que conduziram à queda do Muro. No Verão de 1989, a DDR experimentou uma verdadeira sangria de saídas ilegais. Quem vivia a Leste impacientava-se pela mudança que tardava no seu país, e que já chegara a outros territórios satélites da União Soviética, disseminada pelos ventos de transformação soprados pelo então Secretário-geral do Comité Central do Partido Comunista da União Soviética, Mikhail Gorbachev. Durante semanas, a «Alex» rebentava pelas costuras de gente que gritava «Queremos passar!».

E passaram. A 9 de Novembro desse ano, o muro caiu.

9. Potsdamer Platz

Recorda-se da paisagem urbana desdentada com que Wenders nos derruba numa das mais emblemáticas cenas de «As Asas do Desejo»? Já não existe. O cineasta alemão Win Wenders decidiu centrar uma das conversas dos seus anjos Damiel e Cassiel sobre solidão e vazio no campo que até então era aberto de Potsdamer Platz, com vista para Berlim Leste encerrada entremuro. Hoje, é uma praça moderna, cheia de vida e solicitações. Hoje, já não há vazios na Praça.

À semelhança de outros espaços, a Potsdamer Platz foi transformada numa terra de ninguém aquando a construção do muro. Uma espécie de zona tampão entre o muro que separava o Ocidente do Oriente, e de acesso absolutamente interdito, que legou à solidão e abandono edifícios inteiros, ruas ou estações de comboio e de metro (o S-Bahn e o U-Bahn). Numa livraria ou alfarrabista, encontra com facilidade livros ou velhas fotografias que captam a aridez e desolação desses espaços. Leio nelas a a parábola perfeita da insensatez que se abateu sobre a Alemanha e o mundo, durante aquelas longas décadas de paz (demasiado) quente.

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10. Tempelhof Park

A História dos comos e porquês que conduziram à construção do muro passa por uma visita ao lendário Aeroporto de Berlin-Tempelhof, no lado Oeste. Construído nos anos 1920 e ampliado pelo chanceler alemão Adolf Hitler 10 anos mais tarde, desempenhou um papel fundamental durante a grave crise do Bloqueio de Berlim, ainda mal arrefecia a 2ª Guerra Mundial. Em resposta à introdução de uma moeda alemã nos territórios alemães sob controlo aliado, o Marco, os soviéticos e autoridades da Alemanha Oriental trancaram todas as vias de acesso ao enclave de Berlim Ocidental. Sem entrada de bens como alimentos, medicamentos ou combustível, quem lá vivia não iria suportar a privação. Esta parte da cidade tinha que ser abastecida. E foi a partir de Tempelhof que se operacionalizou a ponte aérea de mais de 200 mil voos, ao longo de quase 1 ano, numa união de esforços entre as forças aéreas dos Estados Unidos, Canadá, Grã-Bretanha, Austrália, Nova Zelândia e África do Sul.

Este foi só o primeiro braço de ferro entre os dois lados da barricada da Guerra Fria, numa escalada de violência que culminou com a construção do Muro.

Desactivado já neste século, o Aeroporto de Tempelhof foi resgatado pelos berlinenses à especulação imobiliária (calcule o valor de 300 hectares quase no centro de Berlim…), e é, atualmente, um imenso parque público, com espaço de sobra para correr, andar de bicicleta, praticar desportos radicais ou picnicar. Agarre num livro e deixe-se ficar.

Onde? Tempelhofer Damm, 12099 Berlin

Quando? Todos os dias.

11. Passear por onde passava o Muro

A fechar, apenas um lembrete: Berlim é para apreciar até onde a vista alcança, chão incluído. O Muro caiu, mas a sua memória não, e a cidade mantém a espaços o seu rasto, através de uma linha no solo de tijolos e placas acobreadas com a inscrição «Berliner Mauer 1961-1989», que serpenteiam pela cidade, assinalando os locais por onde esta barreira de defesa passava. Um dos lugares onde a sua presença é mais marcante situa-se entre a Porta de Brandenburgo e o Tiergarten, o encantador jardim que pulsa no coração da cidade. Esteja atento.

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O que não faltam em Berlim são locais para dormir e comer (bem) recheados de estilo e muito bom gosto. Para quem acha que o descanso é um desperdício de tempo, Berlim é a sua cidade. Mas já lá vamos….

Onde dormir?

1. Hotel Das Stue

Roteiro de Leste em Berlim que se preze não fica concluído sem uma estadia neste mítico Hotel, que começou por acolher a Embaixada do Reino da Dinamarca na alvorada do passado século. De um conforto e elegância desarmante, é talvez o hotel com mais pinta do Mundo que a Pintas conhece. Junto ao Tiergarten, este hotel situa-se do lado Oeste de Berlim, o que aparentemente o eliminava como sugestão deste cardápio a Leste. Só que visitar a cidade e perder a oportunidade de conhecer este caro, mas muito sofisticado retiro urbano …

Onde? Drakestraße 1, 10787 Berlin | +49 30 3117220

2. Hotel Michelberger

Junto à Ponte de Oberbaum e à East Side Gallery, ergue-se este descontraído, hipster, estilo industrial-chic e muito criativo hotel, que em vidas passadas foi uma fábrica. Bem mais acessível que o Das Stue, o Michelberger embrenha-nos no conceito tão alemão da vida comunitária, embrulhada em modernidade, enquanto nos apresenta à frenética vida urbana com os pés de molho no Spree.

Ah, e não se esqueça de reservar o quarto Nº 304, um deslumbre de surpresa….Será uma casa no quarto ou um quarto numa casa?…

Onde? Warschauer Str. 39-40 – Berlin, 10243 | +49 (0) 30 297 78590

Onde comer (Para além dos deliciosos restaurantes das nossas sugestões de hotéis)?

1. Neni

Descontraído e acessível, o Neni situa-se no último andar do 25hours Hotel e é como comer dentro de uma estufa cheia de estilo! Experimente a sua cozinha de fusão com influências orientais, enquanto se delicia com a vista soberba sobre a cidade.

Onde? 25hours Hotel, Budapester Straße 40, 10787 Berlin

Quando? Aberto todos os dias, entre as 12H00 e as 22H30

2. Dóttir

A chef é islandesa, Victoria Eliasdóttir, logo as especialidades da casa só podiam rondar o peixe e mariscos. Cada prato apresenta-se como uma obra de arte e uma experiência a repetir, num espaço sem pretensiosismos, cuidadosamente decorado e a transbordar de estilo e boa onda.

Onde? Mittelstraße 41, 10117 Berlin

Quando? Aberto de Terça-feira a Sábado, das 18H00 às 23H30.

E a noite berlinense?…

Já lá ia. Se depois do passeio exigente que propomos, ainda tem pernas para esticar o dia/noite, Berlim não desaponta. Metal, house, deep house, hip-hop, punk, electrónica ou tango, em espaços que transbordam de loucura e criatividade, difícil é escolher. Eu facilito. Não deixe de ir ao alternativo «Salon zur wilden renate», um clube estranho e cheio de ambiente, que ocupa vários pisos num decadente edifício de apartamentos, e/ou o híper-mega famoso «Berghain», se conseguir resistir à disparatada fila para entrar. Garanto-lhe que serão a experiência de uma vida.

Onde?

Salon zur wilden renate: Alt-Stralau, 70, 10245 Berlin

Berghain: Am Wriezener Bahnhof, no bairro de Friedrichshain.

Artigo escrito por: Rita Martins

Fotos: Rita Martins

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