Amesterdão: A cidade onde cada um pedala ao seu ritmo!

Eram poucas as expectativas que tínhamos quando partimos para Amesterdão. O que levávamos na bagagem era apenas a vontade de explorar o mais possível, viver tudo quanto nos fosse permitido. Diziam-nos que um fim de semana bastava para conhecer Amesterdão.

Não poderíamos discordar mais. Talvez se quisermos ficar apenas pelo superficial. Vale a pena ficar um pouco mais e perceber a orgânica da cidade. Tudo parece ser igual, mas as diferenças estão nas pequenas coisas. De um momento para o outro tão depressa se encontra uma rua muito movimentada, como num recanto silencioso bem no centro da cidade.

Amsterdão
Canais de Amesterdão

Ficámos um pouco mais distantes do centro, num hotel perto da zona empresarial, no Dutch Design Hotel Artemis. Desta forma conseguimos ver não só o centro histórico da cidade, mas conhecer como esta se tem vindo a desenvolver até aos subúrbios. Do hotel nada a apontar, o preço, quando comparado com os que estão no centro da cidade, é muito mais em conta e a qualidade merece as quatro estrelas que tem. Além do mais, para os hóspedes disponibilizam aluguer de bicicletas e scooters. Parece ser um detalhe, mas não é. É que este é um dos principais meios de deslocação na cidade.

Amsterdão
Amesterdão

Vemos gente a andar por todo o lado da cidade a fazer as mais triviais tarefas de bicicleta, desde ir a um multibanco, a transportar um espelho ou as compras, ou ainda a levar as crianças num cesto à frente da sua bicicleta. Vale a pena experienciar pegar numa bicicleta e ir sem rumo a pedalar até onde a vontade nos permitir.

Amsterdão
As bicicletas de Amesterdão

O facto de o hotel disponibilizar o aluguer de bicicletas é também uma segurança, uma vez que em vários locais de alugueres pedem cauções exageradas – cerca de 100 euros – e ainda pedem que deixemos o nosso cartão de cidadão. Ora, claro que não o fizemos!, até porque não entregar a nossa documentação é uma regra que  qualquer viajante deve fazer.

Adiante…Amesterdão é uma cidade lindíssima, com casas enormes e ao mesmo tempo pequeníssimas. Aqui se encontra aliás uma das casas mais estreitas do mundo, bem no centro da cidade. Se repararem, em todo o lado há bicicletas estacionadas e mesmo parques de, pelo menos, dois andares só para bicicletas.

Continua, claro, a existir muita gente a preferir andar de carro, o que poderá encontrar explicação no facto de os Países Baixos serem pouco maiores do que o nosso Alentejo, o que permite muita deslocação entre várias cidades em pouco mais de umas horas. Esta é aliás uma dica que deixamos a todos: é muito fácil fazer deslocações de comboio entre cidades. Existe até a possibilidade de comprar um bilhete de um dia e partir de Amesterdão rumo a outra cidade, sair, visitá-la durante a manhã, apanhar um comboio à hora de almoço para outra que visitamos à tarde e ainda ter tempo para regressar. Um dos percursos que fizemos foi este: de Amesterdão fomos para Roterdão, onde passámos a manhã, depois voltamos ao comboio em direção a Haia, onde passamos a tarde. Durante a viagem pudemos ver a diferença entre a modernidade de Roterdão e a mistura entre o clássico e o moderno de Haia. Ao fim do dia, regressámos a Amesterdão ainda a tempo de beber uns copos.

Roterdão
Roterdão. Foto: Jacqueline Ter Haar

Das coisas verdes

Todos nós conhecemos a reputação de Amesterdão: as drogas leves são toleradas – ainda que cada vez menos – mas em cada esquina encontramos alguém a experimentar. Há quem leve a coisa para a pesada, outros nem se atrevem a tocar nela. Fizemos questão num dos dias de deixar os moralismos de lado e experimentar. O resultado foi uma tarde inteira sentados junto de um dos muitos canais a ver os barcos a passarem enquanto dávamos umas valentes gargalhadas.

Amsterdão
Canais de Amesterdão

Também é certo que só demos umas passas. Mesmo sendo dois nem uma inteira conseguimos fumar. Metade foi mais do que suficiente para experimentar a coisa e desfrutar das cores da cidade quando o sol brilha sobre as águas. A dica que deixamos para quem não saiba é que nas lojas existem já uns tubinhos feitos para os inexperientes como nós, basta fazer o bolo e deitar lá para dentro.

A rua vermelha

O que ao longe parece ser uma ideia libertina e muito progressista, quando vista de perto levanta algumas perguntas. Assim encarámos a famosa rua das montras em que há mulheres a prostituírem-se. É certo que, por um lado, estão mais seguras assim e asseguram também direitos. Mas não deixa de ser curioso que os locais não permitam que existam homens nessas famosas janelas a prostituírem-se. São só mulheres. E assim, uma ideia “progressista” acaba por ter um pouco menos de encanto, quando percebemos que a igualdade de género não se aplica.

Rua Vermelha, Amesterdão. Foto: Mimopellicola, flickr

Recomendamos também a visita ao museu do sexo na mesma rua. É uma experiência que nos permite sentir na pele como é estar sentado dentro de uma daquelas montras, mas também conhecer o interior da montra, o que estas escondem, de onde são estas mulheres, que sonhos tinham elas e quanto têm de pagar por uma pequena montra.

Dos museus: Anne Frank, Van Gogh e o da Cidade

Em Amesterdão há muita arte pela rua, mas também alguns sítios que merecem, sem dúvida, a nossa visita. Uma delas é a casa de Anne Frank, mas também o museu de Van Gogh e o da cidade de Amesterdão.

Nos dois primeiros, um aviso: as filas são enormes, pelo menos na altura do Verão, quando fomos. Ficámos cerca de duas horas em cada uma delas para poder visitar os dois. E como o tempo em Amesterdão muda com grande rapidez o melhor mesmo é estar precavido. Tão depressa está um calor abrasador, como frio, vento ou a chover. Uma dica que pode facilitar a visita é a compra antecipada de bilhetes para poupar tempo na fila de entrada.

No Museu de Van Gogh há todo um mundo de um artista que merece ser contemplado com muita atenção. Os quadros mais conhecidos acabam por ser os mais requisitados mas nem de longe os mais bonitos de contemplar. A própria história de vida e familiar do pintor merece uma séria reflexão sobre Van Gogh, mas também sobre nós próprios e nos caminhos em que tantas vezes nos perdemos e reencontramos.

Museu Van Gog
Museu Van Gogh, Amesterdão

Já na fila para visitar a casa de Anne Frank o sentimento foi muito diferente. A visita começa mesmo antes de estarmos dentro da casa. Para quem leu o seu diário começa por relembrar “quanto tempo esteve Anne Frank escondida?” Muito, certamente. E, no entanto, enquanto esperámos para poder ver o seu refúgio não deixámos de achar curioso que tanta gente quisesse desistir de esperar para ver o seu refúgio. Talvez porque tenhamos a opção que ela não tinha. Visitar a casa de Anne Frank começa na rua, a pensar que temos uma regalia que ela não tinha. Da janela, foram múltiplas as vezes que Anne Frank descrevia o que se passaria lá fora. Hoje estamos aqui, de férias, em liberdade e por opção. E muitos não chegam a perceber o valor que é poder por um pé nestas ruas.

Amsterdam (NL), Anne-Frank-Huis
Casa de Anne Frank, Amsterdão

Vale a pena, valeu a pena esperar. Anne Frank foi apenas uma entre muitas. Um símbolo que representa muitos outros que, como ela, tentaram sobreviver abdicando, por vezes, talvez vezes demais, do mais simples que a vida deve dar a todos.

Recantos silenciosos

Em Amesterdão encontrámos também muito da história religiosa europeia. Fomos visitar a “Esnoga”, a Sinagoga Portuguesa de Amsterdão. Portuguesa? Sim, leram bem. Para esta cidade fugiram muitos portugueses judaicos no período da Inquisição. Nestas paredes há apelidos atrás de apelidos bem portugueses. Mas não só: esta foi a única Sinagoga que ficou de pé em Amesterdão durante o tempo do Nazismo na Europa. A que resistiu por força da vontade dos próprios holandeses. Pelo simbolismo e importância que nela encontraram. Mesmo ao lado, o que restou de uma outra Sinagoga que também visitámos encontrámos um tesouro tão inesperado: Espinoza. Vale a pena descobrir quem é e encontrar escritos seus em português. Descobrir a sua ascendência que também está ligada a este nosso pedacinho de terra à beira do Atlântico.

Por fim, um refúgio inesperado. Certo dia, enquanto passeávamos já sem fazer conta às horas e sem as exigências do tempo contado passeámos jardins onde os desejos se penduram nas árvores e decidindo seguir uma multidão de turistas encontrámos um pequeno recanto do que restou de Amesterdão católico: Begijnhof, um pequeno pátio com todas as portas voltadas para dentro, exceto duas de entrada. Assim se protegeu a diversidade cultural de uma cidade onde ainda hoje convivem quase todas as nacionalidades do planeta. Onde o inglês é já quase como a primeira língua, mesmo para os que nunca daqui partiram.

Begijnhof

Sugestões:

Onde ficarDutch Design Hotel Artemis. relação qualidade / Preço boa.

Onde comer: Pizzaria La vita
Lindengracht 31,1015 KB Amsterdam O preço individual com cerveja a acompanhar: apróx. 15 euros cada
É uma zona onde se vê já mais locais e menos turistas, no centro, pode-se dizer. A comida é boa e o restaurante simples.

Texto assinado por Hugo Lourenço.

Boas Viagens!

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